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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007

Um vazio capital

Os dados da EPUL e do projecto Estudos Urbanos Lisboa XXI traçam uma cidade que se esvazia. O cenário está montado: Lisboa tem cada vez mais casas vazias e menos residentes.
Em dez anos, de 1991 a 2001, um em cada três moradores morreu ou saiu da cidade e o número de alojamentos vagos subiu 61,4%, perfazendo 14% do total de residências existentes em 2001. Por outro lado, naquele ano, mais de metade dos alojamentos ocupados estavam sobrelotados e necessitavam de reparação. Traduzindo por zonas, oito freguesias, com a Madalena à cabeça (78,3%), tinham taxas de sobrelotação na casa dos 70%, e em sete, lideradas pela Sé, mais de três quartos dos edifícios deveriam ser alvo de intervenção (só em Santa Justa são 78,4%).
A vida da Baixa esvai-se, com o escorrer das horas, até sobrarem apenas os sem-abrigo que dormem junto às soleiras. Nas últimas décadas, escritórios e armazéns, pensões e hotéis foram-se encavalitando nos restaurantes, nos bancos e nas lojas encastradas nos pisos térreos, sacudindo dali a habitação. Aqui já morou gente, mas agora cheira a humidade e ao bolor que se tece pelas paredes. E cheira ao lixo que barra as lajes à entrada da porta e ao estuque que neva sobre as traves de madeira que atapetam o chão. “Já não há nada aqui, é só um sítio de passagem”.
Pôr à venda? Ninguém compra. O custo do metro quadrado ronda os 2456 euros. “Com estes preços não é de espantar que as famílias se acumulem ao longo do IC19”.
No entanto, dos 40 mil fogos devolutos de Lisboa recenseados pelo INE em 2001 (embora à data se estime que existissem à volta de 70 mil), cerca de dois terços estavam em “condições de habitabilidade”. Então porque não são habitadas? “São alojamentos que não estão ocupados porque simplesmente são vistos como activos financeiros: os proprietários esperam vender sempre por mais dinheiro”.
Para o presidente da Associação de Inquilinos Lisbonenses “a degradação do património deve-se à falta de cumprimento da lei, mesmo por parte do Estado e das autarquias, e ao desleixo da administração central e local e dos proprietários”.
Só entre 1991 e 2001, a cidade perdeu 200 mil habitantes (cerca de 30% da população), mas ganhou metade desse número. Porém, os “novos lisboetas”, cerca de 33% fixaram-se em Arroios, Avenidas Novas, Benfica, São Domingos de Benfica e Lumiar Sul. E quem são estes novos moradores? São, sobretudo, pessoas em idade activa, entre os 20 e os 64 anos (62%), provenientes da classe média (47%). E um quarto são estrangeiros.
Para um estudioso da geografia urbana, a multiplicação de núcleos periféricos mais modernos e apetrechados, contrasta com a falta de estacionamento e conduz ao perpetuar do ciclo vicioso: o “não vou morar ali, porque não mora lá ninguém”. Uma má opção, pois “estudos realizados em Portugal e Espanha mostram que os custos da utilização diária do automóvel perfazem cerca de 14% do PIB. E não é o primeiro, mas o segundo automóvel do agregado. O que acontece é que o transporte individual privado tem sido a resposta à fragmentação e à dispersão das nossas metrópoles”.
Para o geógrafo, “a cidade precisa de um plano estratégico global, que ultrapasse a fragmentação existente, mas que atente à especificidade das zonas”.
 
Ver Público 2007-12-02
publicado por Sobreda às 01:18
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