Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

CDU LUMIAR

Blogue conjunto do PCP e do PEV Lumiar. Participar é obrigatório! Vê também o sítio www.cdulumiar.no.sapo.pt

CDU LUMIAR

Blogue conjunto do PCP e do PEV Lumiar. Participar é obrigatório! Vê também o sítio www.cdulumiar.no.sapo.pt

Em busca do Cesário perdido

Sobreda, 13.12.07
Agora que a minha biografia de Cesário Verde está nas livrarias, apeteceu-me regressar aos locais onde ele vivera.
Sob o sol deste Outono tão doce, comecei o passeio pela Baixa pombalina, admirando as ruas por ele percorridas, parando, a certa altura, no Terreiro do Paço, onde, sem êxito, procurei sentir o cheiro a maresia, as sombras e o bulício. Irritada com as infindáveis obras do Metropolitano, fui até à Rua dos Fanqueiros, onde o seu pai tinha a loja para a qual ele organizava a contabilidade, mas o trânsito impediu-me a contemplação. Subi a Avenida da Liberdade, até ao começo da rua do Salitre, onde na meninice vivera. Imaginei-o a brincar junto ao coreto que está agora na Estrela. Dei um pulo até ao jardim: as árvores estavam lindas, o solo renovado e o gradeamento reposto. Finalmente, desci até à sua casa na Rua das Trinas, olhando, ao fundo, o Tejo: “Lodoso o rio, e glacial, corria” (…)
No domingo seguinte, fui até ao Paço do Lumiar onde, numa casa cor-de-rosa, Cesário morreu. Semanas antes, escrevia a Macedo Papança: “As melhoras, as próprias melhoras que os medicamentos chamam e espicaçam com o aguilhão da sua química e que eu estimulo com a aguilhada da minha vontade, essas mesmas vão ronceiras, moles, a passo de boi, muito devagar, muito devagar”. No final, interrogava-se: “Chegam-me dúvidas, descrenças, terrores do futuro”. Depois de ter visto morrer, de tuberculose, uma irmã e um irmão sabia o que era "a horrível aniquilação".
Sem trânsito, o local parece uma aldeola oitocentista. No largo de S. Sebastião, um par de velhotas meteu conversa comigo. Expliquei-lhes ao que vinha, perante o que, cépticas, me afirmaram que aquilo de o poeta ter ali morrido – “até lá tinham posto uma placa, um disparate de que nem vale a pena falar” - era uma treta, pois toda a gente sabia que o tal Cesário falecera em Odivelas. Do que deveria tratar, disseram-me, era do restauro da capelinha, uma jóia datando do século XVI.
Muitos responsáveis - ministros, secretários de Estado e autarcas - pensam que a compra do edifício onde um escritor viveu é uma prova de cultura, sem se darem ao trabalho de investigar se há qualquer coisa para meter lá dentro. No que diz respeito a Cesário, o que o Estado deve fazer não é adquirir imóveis, mas contribuir para que, através de boas traduções, os estrangeiros possam conhecer a sua poesia.
Por tudo isto, é de Cesário Verde, e não do Tratado de Lisboa, que Portugal se deve orgulhar.
 
Ler Mª F. Mónica IN Público 2007-12-04, p. 39
Uma breve nota biográfica do poeta pode ser consultada em http://portugues12ano.blogspot.com/2007/12/biografia-cesrio-verde.html