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Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

Regimes de formação musical

O “regime integrado” ministrado na Escola de Música do Conservatório Nacional (EMCN) consiste na frequência única e exclusiva de um curso no Conservatório, enquanto o “regime supletivo” é aquele que permite ao aluno a frequência do Conservatório paralelamente ao normal currículo escolar da maioria dos portugueses. Apesar de esta ser uma opção exigente e difícil a nível de carga horária, é a mais escolhida. E porquê? Porque:
1) Não é no fim da escolinha primária que os meninos decidem ser médicos e descobrem imediatamente a sua vocação, tão pouco arquitectos ou engenheiros, vulcanólogos ou feirantes ou políticos. E a música não será, decerto, excepção;
2) Os seres humanos não são seres monovocacionais e, caso não raro, dedicam-se a várias disciplinas e aprofundam prática e saber em várias áreas. Se o aluno é apto psicológica e fisicamente a suportar as aulas do ensino regular conjuntamente com o ensino da música, do mesmo modo que pode (e deve!) frequentar ainda outras actividades como o desporto e outras artes, por que razão decide o ministério retirar-lhe essa oportunidade?
Passemos a números. A título de exemplo, a EMCN, com cerca de 900 alunos, passará a ter 40 (o número de alunos do integrado). E agora passemos à realidade prática. Centenas de alunos do Conservatório Nacional e dos Regionais serão obrigados a abandonar o seu desenvolvimento vocacional, a não ser que, caso raro, o agregado familiar possa suportar os custos de um ensino particular e, caso ainda mais raro, encontre a qualidade do ensino do Conservatório nesse ensino particular.
Os alunos de canto, que só podem entrar, por razões fisiológicas, depois da mudança de voz, em idade relativamente avançada, ficam portanto excluídos completamente, já que, mesmo que quisessem entrar no regime integrado, não o poderiam fazer depois de acabarem a escolinha primária.
Mas não é tudo. O Ministério chegou mesmo a pretender que as aulas de instrumento fossem leccionadas colectivamente. Esta ideia barroca não cabe na cabeça de qualquer músico. Isto só revela uma ignorância tremenda do que é a complexidade e a especificidade do ensino musical por parte das entidades ministeriais.
A ignorância é mesmo tanta que justificam o fim do “regime supletivo” com o suposto facto de os alunos “desistirem do curso”, por não serem emitidos diplomas. Ora a maioria dos alunos não os chega a pedir, porque para entrar numa orquestra, num coro ou para realizar qualquer trabalho artístico não se apresenta um diploma: fazem-se audições! Basta! Não precisam de aplaudir mais esta pseudo-democratização governamental do ensino.
A EMCN é uma instituição centenária. Por aqui passaram a grande maioria dos músicos eruditos de renome nacional e internacional. Centenas de profissionais de inquestionável prestígio estudaram com sucesso em “regime supletivo”. A EMCN organiza anualmente centenas de audições, concertos e recitais de música de entrada gratuita, contribuindo muito mais para a divulgação da música do que óperas ‘vanguardistas’ de duvidoso valor artístico, e será certamente mais barato de manter que estas, se pensarmos também na riqueza cultural que daí advém.
O alargar da educação musical a todos os estudantes portugueses não tem nada, nem pode ter nada a haver com o Conservatório. No primeiro caso trata-se da mera alfabetização musical dos cidadãos; no segundo da formação específica em Formação musical, Coro e Instrumento de profissionais e artistas amadores altamente especializados.
Qual é o país europeu que não tem o seu Conservatório? Pelos vistos, Portugal será o primeiro a deixar de ter o seu, e a perder um património cultural que muito dificilmente será recuperado, o que fará neste século XXI, na História da Música Portuguesa em particular, bem como na História da Música Europeia, uma ferida irremediavelmente trágica. Uma tragédia à portuguesa.
 
Ler http://neofarpas.blogspot.com/2008/01/democratizao-do-ensino-artstico.html
publicado por Sobreda às 00:18
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