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CDU LUMIAR

Blogue conjunto do PCP e do PEV Lumiar. Participar é obrigatório! Vê também o sítio www.cdulumiar.no.sapo.pt

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Absurdo em Dó maior

Sobreda, 12.02.08
O maestro Victorino d'Almeida considerou “um absurdo” a intenção do Ministério da Educação (ME) de pôr termo ao ensino musical de 1º ciclo (cursos de iniciação) nos Conservatórios de música, transferindo-o de forma generalizada para a rede de escolas públicas tradicionais.
“Acabar com a educação de base dada por profissionais e transferi-la para as escolas normais é tão absurdo que me falham as palavras”, reafirmou o maestro, que é um dos mais de 15.000 subscritores de uma petição “contra o fim do ensino especializado da música em Portugal”, que está a circular na Internet 1.
“É evidente que faz falta mais educação musical no 1º ciclo. Mas isso nada tem a ver com as crianças que manifestam desde pequenas um talento especial para a música”, avisou. “Para elas, a formação musical tem de ser logo profissional. É por isso que estão nos conservatórios. Não é nas escolas normais que aprendem”.
Victorino d'Almeida revelou ter sido convidado pela Ministra da Educação para uma reunião sobre o tema, e prometeu dar-lhe conta do “equívoco” que considera estar prestes a ser cometido. “Creio que a senhora ministra deslumbrou-se com a ideia de que esse ensino da música, que estava ao alcance de alguns milhares, deve ser para milhões. Mas ninguém quer milhões de músicos, nem eles existem”. “Aliás, o problema do País não é encontrar talentos, mas arranjar-lhes trabalho” 2.
Porém, como a tutela e o Grupo de Trabalho da Reforma do Ensino Artístico tencionam recorrer aos serviços de uma centena de escolas privadas para assegurar no futuro “aulas de música” às crianças, que não haja qualquer equívoco sobre a intenção governamental de privatização do ensino artístico.

Por estas razões, na Escola de Música do Conservatório Nacional (EMCN) houve ontem um original coro de protesto: concertos seguidos de um cordão humano em torno do edifício. O mote era a reunião que a direcção da escola iria ter com o grupo de trabalho do ME que está a reformar o ensino especializado da música. Objectivo: chamar a atenção para aquilo que a escola considera um atentado ao ensino ali ministrado 3. Mas o grupo de trabalho acabaria por faltar ao encontro.

Na escola do Bairro Alto, os alunos das classes de iniciação acabariam por oferecer um pequeno concerto para um Salão Nobre apinhado. “Este concerto é a prova de que as iniciações são o garante do conservatório”, declarou um dos membros da Associação de Pais da EMCN, que garantiu ser “essencial manter os três moldes de ensino, para os pais terem liberdade de escolha”.
Também o professor de formação musical Tiago F., considerou que o concerto espelhava a própria escola, que “começou muito pequena, há 170 anos, mas hoje está a funcionar bem e está finalmente a democratizar-se”. O problema é que o ME está a “confundir duas coisas completamente diferentes”: um ensino de excelência, garantido pelos conservatórios, e os conhecimentos musicais básicos, que devem ser garantidas pelas escolas gerais, “de forma complementar” 4.
Os manifestantes garantem que a reforma ditará o fim do Conservatório nos moldes actuais e fará com que 75% dos alunos deixem a escola de música, muitos dos quais poderão ter de abandonar a formação musical de qualidade se não optarem por escolas privadas. Findo o concerto, centenas de alunos e professores cantaram em uníssono os versos de ‘Acordai!’, poema de José Gomes Ferreira musicado por Fernando Lopes-Graça.
O momento simbólico da manifestação - com “um significado muito importante” (e que a polícia ainda tentou impedir) - uniu depois os manifestantes de mãos dadas em torno de todo aquele quarteirão no Bairro Alto. Professores e alunos reuniram-se depois em assembleias separadas para discutir as próximas acções, pois, afirmam, “estamos a defender esta casa - não só os muros, mas tudo o que representa”.
Prometem agora continuar a luta através de concentrações diárias junto ao ME, e de uma manifestação nacional na próxima 6ª fª à tarde, que reunirá membros de escolas públicas de música de todo o país, junto à Assembleia da República para um “concerto mudo” 5.
 
3. Ver Público 2008-02-10