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Terça-feira, 24 de Julho de 2007

A ilusão de Lisboa

A verdade que sai das eleições em Lisboa é que os partidos não aprenderam a lição. Não perceberam que estão a cavar as suas sepulturas. O assunto não é sério. Não levem a mal que não o trate com seriedade. Refiro-me às análises e explicações que as diferentes forças políticas fizeram das eleições para a Câmara de Lisboa. As grandes euforias e os grandes dramalhões resultam sempre nisto: esquecer o difícil e memorizar o mais simples.

A Câmara de Lisboa foi a votos porque o PSD se enfadou. Tinha ganho autarquias a mais e decidiu. Inventamos um pretexto e damos Lisboa ao PS. O pretexto foi a constituição de autarcas arguidos em processos. Diga-se em abono da verdade que foi infeliz a escolha. O PSD continua a ignorar a importância desta figura jurídica. Talvez nem a conheça e vá de transformá-la em condenação impiedosa. Não foi preciso esperar pelo acto eleitoral para se perceber que, afinal, alguns dos arguidos já tinham deixado de o ser quando povo foi a votos. E percebe-se que essa sabedoria popular não vai em cantigas mal cantadas e aviou-lhe uma valente tareia. O perigoso, o terrível arguido ficou à frente da candidatura do PSD. Uma lição de moral cívica.

O PS gritou vitória depois de arrecadar perto de 60 mil votos num universo de 500 mil. A CDU cantou vitória, perdendo, como já é hábito, mais votos. O CDS foi-se na espuma dos cânticos finais e o BE não atou nem desatou. Os cartazes diziam que Lisboa precisava do Zé. O povo deu-lhes o Zé e acabou-se a papa doce. Resumindo: os partidos com assento parlamentar, todos juntos, não chegaram aos cem mil votos. Mais resumidinho: 63 em cada 100 lisboetas mandaram-nos à fava. Não votamos. Estamos fartos. Não nos chateiem! E foram para a praia ou dar uma volta pelos arredores.

Nas explicações finais veio lenha para cima dos independentes. Que Helena Roseta é uma independente de última hora, que Carmona, idem, idem, aspas, aspas e ninguém parece ter percebido que os cinco vereadores eleitos por estes candidatos sabiam isso e quiseram votar contra o sistema clássico partidário que lhes deu raiz. Conclui-se que os independentes só são bons enquanto forem dependentes. Concluo eu, que esse discurso contra os independentes parte de bases falsas porque ninguém é definitivamente independente. É dependente daquilo que viveu, que conheceu, que aprendeu e da forma como o fez.

Mas tudo isto é conversa de treta. A verdade que sai das eleições em Lisboa é que os partidos não aprenderam a lição. Continuou o mesmo marasmo, a mesma rotina nos discursos, as mesmas fórmulas, a mesma retórica. O mesmo cansaço. Não perceberam que estão a cavar as suas sepulturas pela descrença dos eleitores. Não perceberam que deviam ter vergonha e repensar, em vez de assumirem, ufanos, empertigada vaidade. O espírito de capelinha. O covil de interesses pessoais. Para que se acredite na força de cada um. Têm muito caminho para andar se não forem preguiçosos no pensar. E teimosos. Infelizmente são as duas coisas. A candidatura de Manuel Alegre foi o primeiro sinal. Lisboa foi o segundo e mais sério. Sobretudo pela demissão dos eleitores. Talvez à terceira seja de vez. Já não sei.

 

Ler Francisco Moita Flores IN www.correiodamanha.pt/noticia.asp?id=251018&idselect=93&idCanal=93&p=200

Nota: O presidente da Câmara Municipal de Santarém (Francisco Moita Flores) anunciou esta 2ª fª que “não há condições” para se recandidatar a um novo mandato à autarquia de Santarém. E à de Lisboa em 2009? www.correiodamanha.pt/noticia.asp?id=251214&idselect=21&idCanal=21&p=200

publicado por Sobreda às 00:05
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