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CDU LUMIAR

Blogue conjunto do PCP e do PEV Lumiar. Participar é obrigatório! Vê também o sítio www.cdulumiar.no.sapo.pt

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Uma palmeira num deserto de… ideias

Sobreda, 26.12.06

Uma centenária Phoenix dactylifera, vulgarmente conhecida como tamareira, foi transplantada pela CML, na zona do Lumiar, no passado dia 20 de Dezembro, devido às obras em curso no Eixo Norte-Sul. Encontrava-se junto ao mercado do Lumiar e era considerada um exemplar único pela sua dimensão e porte - 20 metros de altura -, por ser uma palmeira multicaule com seis hastes e por estar avaliada em mais de 100 mil euros. Tinha um problema: três dos seus seis gigantescos caules estavam mais altos que o viaduto.

A operação de salvamento teve início com a poda e a amarração das hastes, utilizando-se para tal uma grua acima das 200 toneladas. O exemplar, com um peso de 63 toneladas, foi transplantado para outro espaço ajardinado junto à Avenida Padre Cruz, ficando agora a salvo e fora do traçado do viaduto, sendo só possível averiguar a sua taxa de sucesso dentro de aproximadamente 5 anos.

A árvore conseguiu sobreviver às quintas senhoriais e palacetes, seus primeiros vizinhos que foram demolidos para, no seu lugar, ser construído um emaranhado de milhares de edificações de qualidade urbanística questionável. Outrora, ao seu redor, toda a paisagem estava pintalgada de verde, e a gigante e secular palmeira também não teve outro remédio senão habituar-se ao negro do alcatrão, ao barulho das buzinas e às emissões de monóxido de carbono dos escapes dos veículos da Avenida Padre Cruz, Calçada de Carriche e da Alameda das Linhas de Torres.

Fará esta intervenção da CML parte de um programa integrado de recuperação de espaços verdes na cidade ou terá sido apenas uma mera acção de charme perante a população local e a comunicação social? Com efeito, a imprensa foi expedita a propagandear este transplante.

Consegue-se facilmente depreender nas entrelinhas do Notícias da Manhã que a acção, que contou com a presença do vereador, constituiu uma óptima campanha publicitária, pois foi feita “sob o olhar de dezenas de curiosos”.

Para a SIC, a viagem foi curta, de apenas 15 metros, porque a “Árvore centenária estava a impedir as obras de um viaduto”. A malandra da árvore! Isso não se faz ao viaduto!

Para que não haja dúvidas, diz-nos o Diário de Notícias que o “Eixo Norte-Sul obriga palmeira a 'mudar-se'”, pois impedia a conclusão das obras do Eixo Norte-Sul no Lumiar. Assistimos assim a uma acção de despejo perante o progresso do avanço de mais uma via rápida.

Para o Portugal Diário, o herói da notícia é o vereador, porque nos últimos anos (quantos? 2, 10, 20?) foram realizados mais de cem transplantes de árvores (esperemos que não tenham sido apenas por causa de outros viadutos). Como recordam e sugerem, e bem, alguns leitores, só “não dá para entender esta gente, se a palmeira é única, será que já se fez algo para preservar a espécie, tirando sementes, para ter outras espécies”? Ou que comparam a obra com o “mau trabalho (que) é aquela cangalhada que está no Terreiro do Paço, que só em energia eléctrica gasta muito mais que o preço de transplante da palmeira”!

Não estando em causa o meritório salvamento, fará ele parte de algum projecto concertado de recuperação dos espaços verdes que a CML esteja a seguir?

Oito dias antes do transplante, na Assembleia Municipal de 12 de Dezembro, o Partido Ecologista “Os Verdes” tinha apresentado para aprovação no plenário uma Recomendação denominada “Árvores para Lisboa”, no qual propunha que fosse integrada “na estrutura ecológica da actual revisão do PDM um programa de plantação sistemática de espécies arbóreas autóctones, provendo à substituição das que se encontram mortas ou em avançado estado de degradação”, bem como se desse início “durante o ano de 2007, à promoção da plantação de árvores em zonas delas carentes, no espírito e no âmbito do Programa do PNUA”, campanha que consideravam poder ser estendida “à rede escolar, como forma de sensibilização dos jovens para as questões de recuperação ambiental”.

Entre outros, o texto do PEV indicava como considerandos o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA - www.unep.org/billiontreecampaign), que em 2007 vai lançar uma campanha a nível internacional, de promoção da plantação de espécies arbóreas em larga escala e alcançar mil milhões de árvores plantadas a nível mundial, necessitando para tal do envolvimento dos municípios e dos restantes sectores da sociedade.

O PEV propugnava que as áreas verdes existentes e a programar devem ser preservadas e valorizadas, a fim de se assegurar um conjunto de funções ecológicas no meio urbano e o apoio ao recreio e lazer da população, tendo em consideração que a CML dispõe de viveiros municipais, onde inúmeras espécies arbóreas, arbustivas e de floricultura são semeadas e/ou plantadas para se desenvolverem até ao momento e porte correcto, a fim de serem transplantadas para os seus diversos destinos, quer estes se tratem de jardins, cemitérios, alamedas ou simples canteiros de rua.

Os Verdes” alertaram também que a cidade só é apreciada quando edifícios e áreas verdes se conjugam de forma harmoniosa, sendo estes espaços de proximidade quem confere às cidades um espírito próprio que permitem aos seus habitantes identificarem-se com elas, constituindo os espaços verdes um factor fundamental de conforto, amenidade do ambiente e valor estético, que permitem contribuir para a melhoria da qualidade do ar, bem como facilitar a drenagem das águas pluviais, evitando as crescentes situações de cheias nas cidades.

O que aconteceu na votação desta Recomendação na AML? Recebeu os votos favoráveis de todos os partidos - PS, PCP, BE, CDS e PEV – excepto os da maioria que suporta a Câmara, tendo sido rejeitada com os votos contra do… PSD!

Não haja qualquer dúvida! A vereação, defende o ‘progresso’, mas recusa projectos em prol do bem-estar ambiental da população. A CML sabe preparar acções de propaganda pontuais, mas este “salvamento” constitui apenas o de “uma palmeira num deserto de… ideias”!

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