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CDU LUMIAR

Blogue conjunto do PCP e do PEV Lumiar. Participar é obrigatório! Vê também o sítio www.cdulumiar.no.sapo.pt

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HOJE NO COLISEU - A homenagem do PCP a Ary dos Santos, o Poeta da Revolução

teresa roque, 04.12.09

 

No ano em que se cumpre o 35.º aniversário da Revolução de Abril, não podia faltar, nas comemorações dessa data tão importante para o viver colectivo dos trabalhadores e dos democratas portugueses a viva recordação dessa voz de poeta revolucionário que animou os mais significativos passos das transformações políticas, económicas, sociais e culturais a que Abril deu forma e conteúdo. As palavras com que alentou a Revolução e denunciou as manobras reaccionárias que a quiseram desde logo abafar, o entusiasmo e o acerto com que sublinhou as vitórias e alertou para os perigos, o coração e a razão que presidiram à criação de uma poesia que não se ficava pelas páginas dos livros nem pela gravação dos sons e das imagens mas logo saltaram para as ruas do País e para as vozes amplificadoras dos revolucionários de Abril, perduram na memória dos mais velhos e estão destinadas a alcançar e permanecer nas consciências dos jovens que hoje constroem o futuro. Poeta comunista, Ary dos Santos perdura sobretudo nos corações dos seus camaradas, detentores de um projecto de sociedade que era também o seu. A voz poderosa que ouvimos nos dias gloriosos e nos momentos mais difíceis, encorajando as lutas, as palavras escritas que outros artistas transformaram em música e cantaram de novo se fazem ouvir. Arrebatado pela morte há 25 anos, Ary continua a nosso lado!

RETRATO DE ALVES REDOL

Porém se por alguém não foi ninguém
cantou e disse flor canção amigo
a si o deve. A si e mais a quem
floriu cresceu cantou lutou consigo.

Homem que vive só não vive bem
morto que morre só é negativo
morrer é separar-se de ninguém
e contudo com todos ficar vivo.

Nado-vivo da morte. É isso. É isso.
Uma espécie de forno de bigorna
de corpo imorredoiro que transforma
em fusão o metal do compromisso:
Forjar o conteúdo pela forma:
marrar até morrer. E dar por isso.

POETA CASTRADO, NÃO!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
– é tão vulgar que nos cansa –
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
– a morte é branda e letal –
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
– Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
– Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não

E CADA VEZ SOMOS MAIS

Pela espora da opressão
pela carne maltratada
mantendo no coração
a esperança conquistada.
Por tanta sede de pão
que a água ficou vidrada
nos nossos olhos que estão
virados à madrugada.
Por sermos nós o Partido
Comunista e Português
por isso é que faz sentido
sermos mais de cada vez

Por estarmos sempre onde está
o povo trabalhador
pela diferença que há
entre o ódio e o amor.
Pela certeza que dá
o ferro que malha a dor
pelo aço da palavra
fúria fogo força flor
por este arado que lavra
um campo muito maior.
Por sermos nós a cantar
e a lutar em português
é que podemos gritar:
Somos mais de cada vez.

Por nós trazemos a boca
colada aos lábios do trigo
e por nunca acharmos pouca
a grande palavra amigo
é que a coragem nos toca
mesmo no auge do perigo
até que a voz fique rouca
e destrua o inimigo.
Por sermos nós a diferença
que torna os homens iguais
é que não há quem nos vença
cada vez seremos mais.

Por sermos nós a entrega
a mão que aperta outra mão
a ternura que nos chega
para parir um irmão.
Por sermos nós quem renega
o horror da solidão
por sermos nós quem se apega
ao suor do nosso chão
por sermos nós quem não cega
e vê mais clara a razão
é que somos o Partido
Comunista e Português
aonde só faz sentido
sermos mais de cada vez.
Quantos somos? Como somos?
novos e velhos: iguais.
Sendo o que nós sempre fomos
seremos cada vez mais!

A BANDEIRA COMUNISTA

Foi como se não bastasse
tudo quanto nos fizeram
como se não lhes chegasse
todo o sangue que beberam
como se o ódio fartasse
apenas os que sofreram
como se a luta de classe
não fosse dos que a moveram.
Foi como se as mãos partidas
ou as unhas arrancadas
fossem outras tantas vidas
outra vez incendiadas.

À voz de anticomunista
o patrão surgiu de novo
e com a miséria à vista
tentou dividir o povo.
E falou à multidão
tal como estava previsto
usando sem ter razão
a falsa ideia de Cristo.

Pois quando o povo é cristão
também luta a nosso lado
nós repartimos o pão
não temos o pão guardado.
Por isso quando os burgueses
nos quiserem destruir
encontram os portugueses
que souberam resistir.

E a cada novo assalto
cada escalada fascista
subirá sempre mais alto
a bandeira comunista.

O FUTURO

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.

José Afonso faria ontem 80 anos

Sobreda, 03.08.09

Duas décadas depois da sua morte é um ‘património cultural nacional’ um pouco esquecido?

 
“Terra da fraternidade
Grândola vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena”
 
José Afonso, uma das mais importantes figuras da música portuguesa, faria 80 anos ontem, domingo, mas morreu em 1987, em Setúbal, cidade derradeira de um percurso que tinha começado em 1929, em Aveiro, onde nasceu.

 

 

Com a música e o ensino, José Afonso traçou um mapa geográfico pessoal, de Faro a Coimbra, de Belmonte a Setúbal, com ponto de partida em Aveiro e passagem marcante por África.
Durante a década de 30, fez os primeiros estudos em África, um continente que lhe marcou o rumo dos passos anos depois, quando, em meados de 1960, deu aulas em Moçambique. Em 1940, com 11 anos, rumou a Coimbra, cidade epicentro da adolescência e palco das serenatas, no Orfeão e na Tuna Académica.
Ainda a concluir o curso na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, dedica-se à docência, a partir de finais dos anos 50, quase com 30 anos, num percurso nómada em escolas de norte a sul. Aos alunos ensinava História e Geografia, mas sobretudo vivência para que fossem pessoas e tivessem espírito crítico.
Já aí repartia o tempo com a composição, com a edição dos primeiros discos de fados e baladas de Coimbra e digressões com a Tuna Académica.
Teve uma passagem breve por Moçambique entre 1964 e 1967, onde deu aulas e fez, como admitiu, o seu baptismo político quando se vivia já a guerra colonial.
Esgotado com o cenário de conflito, voltou a Portugal em 1967. Tinha três filhos e foi colocado como professor em Setúbal.
É em finais dos anos 60, em pleno marcelismo, que José Afonso intensifica o trabalho na música e o activismo político. Depois de ter sido expulso do ensino oficial, desdobra-se em gravações e em concertos, muitos deles proibidos pela PIDE.
Entre 1971 e 1974, assiste ao estertor do Estado Novo e à Revolução de Abril. Lança discos como "Cantigas do Maio", "Venham mais cinco" e "Coro dos tribunais", que o fazem trovador entre os cantores portugueses.
‘Grândola Vila Morena’, a senha do Movimento das Forças Armadas para a Revolução do 25 de Abril de 1974, inspirou-se numa breve passagem do cantor por aquela localidade alentejana.
Em 1983, com 54 anos e um longo percurso na música de intervenção e de inspiração tradicional e popular, José Afonso é reintegrado no ensino oficial e destacado para Azeitão, em Setúbal. Um ano antes, tinha-lhe sido diagnosticada esclerose lateral amiotrófica, fatal em 1987. Morreu a 23 de Fevereiro, em Setúbal.
 
“Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus mo deu Ai Deus mo levou” – IN ‘Cantigas do Maio’
 

CineConchas 2009

Sobreda, 02.07.09

A partir de hoje, dia 2 de Julho, terá lugar nos jardins da Quinta das Conchas no Lumiar, em Lisboa, a segunda mostra de cinema ao ar livre “CineConchas 2009”.

Aproveitando as noites amenas de Lisboa e as excelentes condições proporcionadas pelo espaço localizado entre a Alameda das Linhas de Torres e a Alta de Lisboa, o “CineConchas” irá exibir 12 filmes, de quinta a domingo às 21h45, entre 2 e 25 de Julho. A entrada é gratuita.
Ao dispor do público estará uma programação variada. Filmes de grande espectáculo como “007 – Quantum Of Solace” ou “Mamma Mia!”; de animação como “Wall-E” ou “Ratatouille”; ou abordagem a temáticas mais sérias em “A Turma” ou “Expiação”.
O programa deste ano inclui ainda duas novidades: a projecção do filme mudo “Lisboa: Crónica Anedótica” de Leitão de Barros com acompanhamento ao piano, ao vivo; e a estreia do documentário “Vizinhos” de Tiago Figueiredo, projecto que aborda a história da área onde hoje está implementada a Alta de Lisboa e os desafios e problemas que surgiram da vivência conjunta de populações realojadas e da classe média.
O “CineConchas” faz parte, pelo segundo ano consecutivo, do programa oficial das Festas de Lisboa, contribuindo assim para levar as festas da cidade a um bairro onde estas quase não chegavam.
O objectivo principal é trazer os habitantes para a rua, valorizar uma estrutura tão com importante como é a Quinta das Conchas e dos Lilases e contribuir para o convívio entre todos utilizando um meio transversal, que agrada a todos: o cinema.
O CineConchas é uma iniciativa organizada em parceria pela EGEAC, Centro Social da Musgueira e pelo Viver na Alta de Lisboa.
 

PS chumba proposta de suspensão do novo Museu dos Coches

Sobreda, 13.06.09

O PS chumbou o projecto de resolução do PCP que recomendava a suspensão imediata da construção do novo Museu dos Coches, que contou com votos favoráveis do PSD, CDS-PP, PEV e de dois deputados socialistas.

O projecto de resolução apresentado pelos comunistas propunha também a abertura de um processo de discussão pública sobre a construção do museu e mereceu ainda a abstenção da bancada do BE.
Segundo o projecto de resolução do PCP, o Governo “não conseguiu até hoje explicar a necessidade de construir um novo Museu dos Coches, muito menos justificar a construção desse museu como prioritária face a outras necessidades de investimento museológico ou cultural”.
Considerando a decisão do Governo “desastrosa”, o deputado comunista João Oliveira defendeu a suspensão “imediata” do processo de construção do novo Museu dos Coches nas instalações das antigas Oficinas Gerais do Exército, além de um processo de discussão pública sobre o projecto e as suas consequências para os museus e serviços envolvidos.
Uma das críticas generalizadas é o facto de não ter sido aberto um concurso para a obra e para a escolha do arquitecto, bem como a construção de um novo edifício público orçado em cerca de 30 milhões de euros sem concurso público, para mais quando a verba poderia ser utilizada em outros museus que necessitam “urgentemente” de obras de conservação e restauro.
O deputado José Luís Ferreira do Partido Ecologista “Os Verdes” manifestou-se igualmente contra a construção de um novo museu e adiantou que o Governo ainda não explicou qual o motivo da mudança de instalação. “Só vejo uma justificação: há dinheiro, gasta-se”, realçou.
 

Museu do Traje e Museu do Teatro

Sobreda, 11.06.09

 

O Museu Nacional do Traje 1 encerrou ao público, para realização da 2ª fase da desinfestação anual, no período matinal, entre os dias 9 a 12 de Junho, motivo pelo qual se solicita a melhor compreensão dos visitantes.
A Loja e o Parque Botânico do Monteiro-Mor continuarão contudo a funcionar dentro do horário habitual 2.
Por seu turno, encontra-se novamente disponível a página da Internet do Museu Nacional do Teatro 3, que esteve temporariamente suspensa para responder às normas em matéria de acessibilidades exigidas aos sites da Administração Pública portuguesa.

 

 

Tratando-se de um instrumento fundamental para a divulgação deste Museu e das suas vastas colecções e iniciativas, este sítio foi agora totalmente revisto no seu aspecto gráfico e actualizado no que respeita a conteúdos. Por outro lado, a facilidade de actualizações permanentes tornou-o muito mais eficaz e pertinente, quer quanto à informação por ele fornecida, quer quanto à iconografia divulgada.
Na visita a este renovado sítio é possível percorrer, através de texto e imagem, a história, as colecções, as exposições, as actividades e, no fundo, a vida do Museu Nacional do Teatro e também partes significativas da História do Teatro e das Artes do Espectáculo em Portugal. Para além disso, ali é ainda possível encontrar um conjunto de informações úteis que conduzem com maior facilidade à visita física a este Museu Nacional, cumprindo assim uma das missões fundamentais da sua existência 4.
 

Câmara não pode aprovar o novo Museu dos Coches

Sobreda, 06.06.09

A Plataforma pelo Património Cultural (PPCult) defendeu ontem, em comunicado, que a CML “não pode aprovar o novo Museu dos Coches”, um projecto que, lembra o PPCult, o presidente da autarquia já classificou como “desnecessário”.

Num texto muito crítico, a plataforma lamenta que a CML se prepare “para quebrar da pior forma o seu silêncio comprometido, fazendo aprovar [está agendado na próxima terça-feira] uma resolução do vereador Manuel Salgado, na qual se propõe a homologação de parecer favorável condicionado ao projecto do novo Museu dos Coches”. Este parecer favorável surge depois de o arquitecto brasileiro Paulo Mendes da Rocha ter alterado o projecto, retirando o silo automóvel que estava planeado para a frente ribeirinha e que foi vetado pela CML.
O PPCult, cujo secretariado permanente é assegurado pelo director do Museu Nacional de Arqueologia, acusa também a CML por ter “permitido ao Estado o que a nenhum particular autorizaria", ou seja, "iniciar demolições e obras sem projectos aprovados”, numa referência às demolições já iniciadas nas antigas Oficinas Gerais de Material do Exército, na Avenida da Índia, local onde será construído o novo Museu dos Coches.
O que os membros da plataforma defendem é que, antes de tomar uma decisão, a Câmara participe no debate público sobre esta questão. “Pode até acontecer que se conclua [...] que o projecto [...] é aceitável, devendo apenas ser reprogramado nos seus conteúdos, por forma a respeitar não somente as prioridades de uma política cultural e museológica nacional, como as carências de oferta que se fazem sentir em Belém”.
 

10ª Feira de expressões artísticas de Carnide

Sobreda, 04.06.09

ESTÁ AÍ A 10ª FEIRA DE EXPRESSÕES ARTISTICAS DE CARNIDE      
 
 

A 10ª edição da Feira de Expressões Artísticas de Carnide decorre de 3 a 6 de Junho no Jardim da Luz e pretende ser uma mostra do trabalho desenvolvido ao longo do ano lectivo pelas instituições, escolas e grupos da freguesia.
Serão 4 dias mágicos onde as milhares de crianças de Carnide (e da cidade) poderão experimentar a brincar, as inúmeras actividades que as várias entidades prepararam este ano.
O tema da Feira é: "Inovação e Criatividade - Do Universo à Comunidade", dando continuidade ao trabalho desenvolvido ao longo do ano lectivo.

Do programa de animações, destaca-se a grande exibição das Marchas Infantis 2009 (Carnide é a freguesia com maior número de Marchas Infantis da Cidade) que terá lugar no dia 6 de Junho pelas 16 horas junto ao adro da Igreja da Luz.
Visite.

Vereadoras assumem divergências entre si sobre exposições de arte africana

Sobreda, 25.05.09

As vereadoras do movimento Cidadãos por Lisboa Helena Roseta e Manuela Júdice assumiram na 4ª fª a divergência sobre a realização de duas exposições de arte africana, orçamentadas em 500 mil euros.

Roseta disse que votará contra a realização das exposições das colecções de arte africana de José de Guimarães e Joe Berardo, no âmbito do projecto ‘Lisboa, Encruzilhada de Mundos’ (LEM), da responsabilidade da outra vereadora do movimento Cidadãos por Lisboa, Manuela Júdice.
“Os Cidadãos por Lisboa não aprovarão a realização destas exposições por motivos políticos”, justificou Roseta aos jornalistas, sublinhando entender que o montante envolvido “não é razoável” e a iniciativa “não é prioritária” 1.
Ou seja, Júdice aceitou apresentar esta proposta na CML a pedido do próprio presidente da CML, mas Roseta percebeu que se tratava de mais uma jogada de promoção política do PS em vésperas de eleições, e retirou o tapete à sua colega do Movimento. Aleluia!
 

‘Guarda-sol Amarelo’ numa aldeia dentro da cidade

Sobreda, 21.05.09

«Como podemos pensar a comunidade de hoje em dia numa cidade cada vez mais impessoal, invadida e abandonada todos os dias? O grupo Teatroàparte, de forma arrojada e criativa, propõe-nos, através de um exercício pessoal e colectivo, uma reflexão sobre esta temática com o seu mais recente projecto, ‘Guarda-sol Amarelo’.

A peça está em cena e prolonga-se nos dois próximos fins de semana na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, demonstrando uma vez mais o porquê deste grupo de teatro ser um objecto atípico nos dias que correm.
“Recordo com um sorriso doce e nostálgico o que era ser criança em Telheiras. Essa Telheiras que já apenas suspira por baixo de prédios ricos e de uma azáfama constante.” É com esta recordação de um tempo que deixou de o ser mas que, ao mesmo tempo, evoluiu para um conceito de comunidade de século XXI, que somos invadidos ao ver ‘Guarda-Sol Amarelo’, peça do grupo de teatro Teatroàparte, que nasceu e vive dentro de Lisboa, em Telheiras.
Telheiras é um sem dúvida um caso especial não só pelas características de ‘aldeia’ dentro de uma cidade cosmopolita que mantém, mas também pela mobilização que os seus habitantes, devido à sua cultura, idade e predisposição mantém em relação a outras ‘aldeias’ dentro da cidade onde habitam de pessoas de idade já bastante avançada.
Através desta vontade surgiu o profícuo grupo de teatro Teatroàparte, que conta já com 12 anos de idade e com uma miríade de trabalho que atinge o clímax com a sua nova peça de Teatro: ‘Guarda-Sol Amarelo’.

 

 

Esta peça não é inocente e era, de certa forma, inevitável, tendo estado apenas a marinar de forma lenta para explodir com a dose certa de criatividade. Para quem segue o trabalho activo deste grupo de pessoas, cujo conjunto advém dos inputs de cada um, sabe que não é fácil gerir um grupo tão heterogéneo com idades e backgrounds tão diversificados. Saber aproveitar esta massa criativa e orientá-la para um resultado desta índole não é certamente pêra doce. Contudo podemos afirmar com segurança que se atingiu esse objectivo de forma clara e de certa forma brilhante.
Com esta peça foi posta em prática um tipo de exercício que nem sempre consegue ser bem sucedido. Colocou-se a nu o mapa emotivo dos actores com interpretações e textos escritos por si próprios. “A primeira ideia foi uma espécie de Conferência, teatro documental e show num espectáculo. Começámos a trabalhar a partir da Telheiras espacialmente, das idades e também a partir dos mapas emotivos das pessoas e um retrato da cidade sempre tendo Telheiras como referência, mas sempre com uma ideia de universalidade”.
Esta ideia de universalidade ganha uma nova dimensão a partir da forma como os actores expõem parte das suas vidas, sem que com isso seja gratuito ou sensacionalista o que curiosamente cria uma sensação de partilha verdadeiramente gratificante, tornando esta experiência mais rica e indo ao âmago do que uma experiência cultural deve ter. Além deste contacto mais pessoal com os actores, a peça acaba por ser também “histórias de 35 anos de democracia portuguesa e do contacto intra-geracional com o que existiu pelo meio”.
O mito que dá nome à peça veio segundo a explicação de um dos seus membros como uma metáfora para uma mobilização pessoal: “Há um guarda-sol amarelo na mitologia da Associação de Residentes de Telheiras, entretanto, tornado seu símbolo gráfico. Mas o mito do guarda-sol amarelo, difundido na pequena brochura, é também uma realidade materializada. Sempre que alguma coisa está para acontecer, há uma campanha em curso, ou se torna urgente gerar mobilização, os chapéus abrem-se nas esquinas de maior movimento”.
Se certamente as pessoas vão discutir a relevância e ligação com o conjunto de algumas das interpretações, não vão certamente sentir-se defraudadas do conjunto e da ideia final que resulta.
O cenário, que é composto por uma maquete da ‘cidade’ de Telheiras, que acaba por servir os actores das mais diversas formas, “está muito relacionado com o projecto e com isso surgiu a maquete que seria a base que foi construída com materiais reunidos por toda a gente”.
Outro dos elementos que se utilizou de forma mais presente pela primeira vez numa peça do grupo foi uma câmara. Esta experiência veio enriquecer o trabalho, pois “a multimédia acabou por complementar a cenografia o que fez com que a maqueta ganhasse vida pelas brincadeiras que fizemos com a escala”.
O rumo sócio-cultural que Portugal segue nos dias de hoje está na ordem do dia, e cada vez mais se reflecte acerca do conceito de comunidade, ou da falta dela. O Teatroàparte veio, uma vez mais, e desta vez de forma explícita, reforçar que ainda existe em Lisboa esse sentimento, com uma memória colectiva muito portuguesa destes 35 anos de democracia portuguesa, independentemente dos interesses particulares».
 
Ler ‘Guarda-sol Amarelo’ por Tiago Gil Batista IN www.semanario.pt/noticia.php?ID=4794