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CDU LUMIAR

Blogue conjunto do PCP e do PEV Lumiar. Participar é obrigatório! Vê também o sítio www.cdulumiar.no.sapo.pt

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Pobreza aumenta em Portugal com baixos salários e desemprego

Sobreda, 04.08.09

 

«A pobreza está a aumentar em Portugal, mesmo entre os trabalhadores com emprego, e também entre os desempregados, as famílias com filhos e os jovens. Mas só agora é que o primeiro-ministro descobriu que existem famílias a viver abaixo do limiar da pobreza e promete introduzir no seu programa eleitoral, para obter votos, um subsídio para essas famílias, como divulgaram os órgãos de informação.
Segundo o INE, entre 2007 e 2008, a taxa de risco de pobreza, ou seja, pessoas que auferem um rendimento inferior ao limiar de pobreza (384,5 euros/mês - 14 meses) aumentou em Portugal de 10% para 12% entre os empregados (+20%); e de 32% para 35% (+9%) entre os desempregados.
Em relação à população empregada pode-se falar já com propriedade de “pobreza no trabalho”, ou seja, trabalhadores que têm emprego, mas cujo salário que obtêm não é suficiente para viver com um mínimo de dignidade. Congelar salários ou reduzir salários, como defendem alguns, seria aumentar ainda mais a pobreza mesmo entre aqueles que têm emprego.
A solução eficaz passa por subir significativamente o salário mínimo, e fazê-lo cumprir, para combater o aumento da pobreza entre os que têm trabalho.
Relativamente aos desempregados, a dimensão da pobreza é ainda maior do que aquela que revelam os dados anteriores do INE. Efectivamente, em Maio de 2009, a taxa de desemprego em Portugal atingia, segundo a OCDE, 9,3% o que correspondia a 520.316 desempregados (…)
Portanto, se adicionarmos aos 101.546 que recebiam um valor inferior ao limiar da pobreza aos 196.400 que não tinham direito ao subsídio de desemprego, obtém-se 297.946, o que corresponde a 57,3% do total de desempregados estimados pela OCDE. Isto significava que, pelo menos, 57 em cada 100 desempregados ou não recebiam subsídio de desemprego ou recebiam um valor inferior ao limiar da pobreza.
É devido a estes números que afirmamos que a taxa de pobreza entre desempregados é superior aos 35% divulgados pelo INE (e pelo Governo).
Perante a pressão da CGTP-IN e dos partidos políticos da oposição para que o Governo alterasse a lei do subsídio de desemprego que publicou para abranger mais desempregados, já que a actual está a excluir um elevadíssimo número de desempregados do direito ao subsidio de desemprego, o Governo aprovou recentemente o Decreto-Lei nº 150/2009, que é uma autêntica burla, pois a alteração feita é claramente insuficiente, e não é no subsidio de desemprego, mas sim no subsídio social de desemprego.
Antes, um desempregado tinha direito ao subsídio social de desemprego se o rendimento mensal per-capita do agregado familiar fosse inferior a 80% do salário mínimo nacional; agora, devido a alteração feita pelo Governo, o desempregado tem direito se o rendimento for inferior a 110% do IAS, que corresponde a 460 euros. Os efeitos desta medida são reduzidos. O próprio Governo já admitiu que isso poderia beneficiar, quanto muito, 15.000 desempregados.
Ou seja, muda-se uma pequena coisa para que tudo, no essencial, fique na mesma.
Este Governo não se cansa de afirmar na propaganda oficial que está extremamente preocupado com o apoio às famílias e aos jovens. No entanto, os dados que o INE acabou de publicar desmentem também esse apoio às famílias e aos jovens. E são os dados oficiais do INE que confirmam o aumento de pobreza em Portugal, desmentindo a propaganda governamental veiculada acriticamente pelos órgãos de informação portugueses».
 
Ler o estudo “Pobreza aumenta em Portugal em 2008 segundo o INE” do economista Eugénio Rosa

As 'estórias' de alguns sem-casa

Sobreda, 14.06.09

No início do mês, uma ex-vereadora da CML e actual deputada do PSD foi acusada pela Procuradoria-Geral da República de 22 crimes de abuso de poder por ter atribuído irregularmente casas que pertencem à autarquia de Lisboa. Para além dela, foram acusadas duas assistente sociais da autarquia e uma jurista que trabalhou no gabinete da ex-vereadora (de um actual candidato a presidente da CML) 1.

No despacho de acusação, o Ministério Público refere 24 casos de grave carência social e económica, que deveriam ter sido atendidos pela CML, mas que foram “liminarmente indeferidos” por não terem sido considerados prioritários.
No entanto, durante anos, a várias figuras públicas, de artistas a jornalistas e até a uma vereadora, foram concedidas casas. O relatório final da PGR sobre a atribuição de casas camarárias em Lisboa refere que os critérios se basearam em interesses “particulares e flutuantes” e descuraram “total e grosseiramente” os princípios de igualdade dos cidadãos perante a administração 2.
Até a ‘cunha’ da mulher de um ex-primeiro-ministro serviu para conseguir que a CML desse, no espaço de “cinco dias últeis”, uma casa a uma mulher que consigo frequentava a mesma paróquia 3.

 

 

Eis alguns exemplos aleatórios dos ‘sem-casa’, com pedidos liminarmente indeferidos pela equipa da vereadora.
Com um rendimento mensal fixo de €208, doente e sem alternativa habitacional, viu o seu pedido ser recusado no prazo de cinco meses, por “a situação não ser de grande emergência”.
A viver sozinha com quatro filhos, e com um rendimento mensal de €300, tinha uma acção de despejo por não conseguir pagar a renda de €375. O pedido de casa foi rejeitado no próprio dia.
Com um agregado familiar constituído por um casal (os dois desempregados) e sete filhos, dois deles deficientes, e um rendimento mensal de €600, viu o seu pedido de casa indeferido.
Vendedora ambulante, vive com a filha deficiente motora (devido a paralesia cerebral) num T1 minúsculo, num bairro clandestino nas traseiras do Parque das Nações. A cadeira de rodas da filha não passa na porta, o que a obriga a ir dormir a uma ama. Tinha um rendimento de €200. Não foi considerado prioritário pela Câmara.
Ele e companheira, ambos invisuais, viviam numas águas-furtadas, num prédio de escadas incrivelmente íngremes, na zona de S. José. Tinham um rendimento mensal fixo de €462.
Apesar de ter um agregado familiar de oito pessoas e apenas €165 de rendimento mensal fixo, o caso não foi considerado prioritário
Vivia com o marido e quatro filhos numa carrinha, com um rendimento fixo de €110. Nem sequer foi alvo de despacho.
Com mobilidade reduzida (incapacidade de 80%), vivia num quinto andar sem elevador, com mais duas pessoas. Com rendimento fixo mensal de €375, pagava €460 de renda.
Com um agregado familiar composto por seis pessoas, sofria de problemas de saúde e por mês tinha apenas €179 para gastar.
Sem rendimento mensal fixo, vivia sozinho numa barraca, na zona do Rego. Nem sequer foi alvo de análise ou de qualquer despacho
Seropositivo, prostituto nas imediações do Conde Redondo, andava perdido de pensão em pensão quando fez o pedido e não tinha mais de €143 para gastar por mês. Mudou-se entretanto para casa os pais adoptivos, viu morrer a mãe, e dorme agora no chão de uma assoalhada mínima. Foi liminarmente indeferido 4.
 

Carvalho da Silva alerta para o perigo de explosão social

Sobreda, 08.04.09

O secretário-geral da CGTP advertiu ontem para o perigo das medidas de apoio do Governo à crise económica camuflarem “explosões sociais”, que poderão ter maiores dimensões no futuro.

“Os trabalhadores são importantes para o país não por serem um problema social, mas porque são a força do trabalho. Quando nós vemos as preocupações centradas em tapar os buracos para que não haja explosões sociais, há que ter cuidado porque a explosão pode ser muito maior à frente, com prejuízos muito maiores para o país”.
Antes de encontro com os trabalhadores que se debatem com atrasos no pagamento de ordenados, o secretário-geral da CGTP classificou a visita como um acto de “solidariedade”, “indignação” e de apresentação de propostas dos Sindicatos ao Governo, através do Governo Civil de Santarém e da Associação Empresarial da Região.
“A preocupação, no imediato, é apenas cuidar do problema social. Se virmos o discurso dominante há preocupações com os trabalhadores, porque pode, a sua instabilização absoluta, criar rupturas sociais, explosões, portanto, há que dar umas migalhas, um subsídio a este e àquele”, referiu Carvalho da Silva, realçando a necessidade de “mobilizar a sociedade para defender o emprego até ao limite”.
O líder da Intersindical defendeu ainda que os trabalhadores devem ser “elementos centrais de produção de riqueza e acompanhamento dos processos das empresas e dos serviços públicos”.
“Anda aí o ministro da Economia, todo contente, a distribuir cheques aos grandes patrões e estão a entregar volumes imensos de dinheiro, sem que haja acompanhamento e rigor na execução”, sublinhou Carvalho da Silva, acrescentando que “é preciso fazer investimentos. O problema é o rigor, o acompanhamento e, não há dúvida, que há muita coisa que apenas está a ser camuflada”.
De acordo com o secretário-geral da CGTP, a “saída da crise passa, inevitavelmente, por uma mudança de práticas ao nível das empresas, mas sobretudo de propostas novas para a juventude”.
“Enquanto as propostas que se fazem à juventude são salário precário, salários baixíssimos e dizer aos jovens que esta sociedade, onde é possível produzir mais riqueza do que nunca, que não vai dar os mesmos direitos e condições que dava aos seus pais e avós, não se acreditem que há saída da crise. As coisas vão ter de mudar muito e é melhor que comecem a mudar, antes que as rupturas sejam profundas”, afirmou Carvalho da Silva, alertando ainda para os riscos do ciclo eleitoral.
“Nós vivemos um ano eleitoral e será um drama se passarmos este ano com políticas a fazer de conta e a varrer os problemas para baixo do tapete. O esconder os problemas pode tornar a situação do país extremamente delicada. Ninguém sabe ao certo qual é o buraco no Orçamento de Estado que está a ser produzido neste momento e as eleições terminam daqui a meses, o país vai ter de continuar e alguém vai ter de pagar. Nós sabemos quem paga sempre, é preciso reagir enquanto é tempo”, rematou Carvalho da Silva.
Entre as 12 medidas propostas pela USS ao Governo, destaca-se o ajustamento do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) ao cenário de crise actual, o pagamento das dívidas do Estado e das autarquias às empresas, a redução dos preços da energia, regular o pagamento do IVA apenas após o pagamento, a suspensão do pagamento especial por conta e a criação de um fundo de reestruturação de empresas, para “apoiar as empresas com viabilidade económica, financiado pelas empresas que dispõe de melhor situação económica”.
 
Ver Lusa doc. nº 9530420, 07/04/2009 - 16:56

Utilizadores de balneários públicos estão a aumentar

Sobreda, 05.03.09

O número de portugueses que recorre aos balneários públicos está a aumentar em Lisboa, Porto e Coimbra, estando também a alterar-se o perfil social daqueles que recorrem aos banhos e lavagens gratuitos.

No balneário de Alcântara, o maior destes espaços em Lisboa, o número chega a ser de 400 aos fins-de-semana, muito por causa daqueles que nunca esperaram utilizar estes serviços públicos. Aqui há cerca de cem utilizadores diários aos dias de semana, número que quadruplica aos fins-de-semana, muito por ‘culpa’ das muitas famílias de classe média.
“Não pagam nem o sabão, nem a água, nem o aquecimento da água. Há pessoas que me dizem: 'o dinheiro está curto. Antigamente, o dinheiro chegava até ao dia 20, agora chega ao dia 10 e já não tenho'”, assinalou o presidente da Junta de Freguesia de Alcântara.
Um funcionário, que trabalha há 11 anos neste espaço, notou que muitas pessoas que lhe perguntam sobre as condições de funcionamento deste balneário, “são pessoas que já viveram mais ou menos e que agora, porque não têm dinheiro para comprar gás ou porque foram postos na rua porque não pagaram renda de casa ou porque têm água cortada, são pobres encobertos”.
Descreveu ainda um utente que vem de jipe e que entra apenas no espaço para se lavar, saindo depois sem falar, e de outros que trazem a roupa num cabide.
Estes novos utilizadores do balneário de Alcântara contrastam com os habituais utentes que têm à sua disposição gratuitamente não só os banhos, mas também outros serviços, como a roupa lavada.
No Porto, uma funcionária de um dos seis balneários da cidade também registou um aumento no número de utilizadores, que numa manhã chegaram aos 106 utentes, uma tendência idêntica à de Coimbra, onde os balneários reabriram há oito meses.
“Verificámos a partir de Outubro e Novembro novas adesões. Passámos de 16 para 29 e agora em Janeiro tivemos 35 utentes, sendo que no mês de Fevereiro já estamos a chegar perto dos 40”, assinalou a responsável por estes balneários na cidade de Coimbra, para quem a maior parte dos utilizadores dos balneários da terceira cidade portuguesa são sem-abrigo.
 

Exclusão social ameaça 30 mil desempregados

Sobreda, 02.03.09

No final de 2008, o desemprego real afectava 565.800 portugueses - 10,1% da população activa - e mais 30 mil cidadãos estavam a caminho de cair na rede do rendimento social de inserção (ex-rendimento mínimo garantido). Em 2009, as previsões oficiais apontam para um agravamento do mercado de trabalho e para um aumento do número de excluídos.

Marginalizados dos dados oficiais do desemprego e ameaçados de exclusão no mercado de trabalho, estas três dezenas de milhares de trabalhadores são apelidados de ‘desencorajados’. São os ‘desanimados’ que respondem no inquérito trimestral do INE não saber procurar trabalho ou ‘achar’ que ‘não vale a pena procurar trabalho’. Não entram na contabilidade do desemprego real e estão, por isso, no limiar da exclusão social. Mais tarde ou mais cedo, deverão entrar nas contas do rendimento social de inserção.
Uma perspectiva cada vez mais real, já que a economia continua a dar sinais de degradação, sem oferta de emprego.
Em Dezembro passado, o Governo fixou a taxa de desemprego nos 7,6% da população (activa), afectando 427,1 mil portugueses. Uma (conveniente) quebra de 0,4 pontos percentuais face a 2007, menos 21 mil desempregados.
Porém, as estatísticas oficiais escondem (em 2008) mais 139 mil portugueses sem trabalho, o que, no conjunto, representa 10,1% da população activa.
São duas as categorias excluídas das estatísticas (para além dos 30 mil ‘desencorajados’). Na realidade, existiam 69,4 mil ‘inactivos disponíveis’, que apenas um critério estatístico afasta das listas oficiais do desemprego do INE. São os desempregados que respondem no inquérito do INE que não procuraram trabalho nas últimas três semanas.
Existem ainda mais 69 mil portugueses inseridos pelo Instituto de Estatísticas em outra categoria: a do ‘subemprego visível’, que também entram na contabilidade do desemprego real. São os apelidados de ‘biscateiros’. O número de portugueses que caiu neste ‘modo de vida’ aumentou 4% em relação a 2007.
O exército dos sem trabalho deverá aumentar este ano, de acordo com a generalidade das previsões. A OCDE, bem como o Banco de Portugal e o Governo, estima que o emprego deverá cair entre 0,7% e 1% em 2009. Isto significa que pelo menos 35 mil a 50 mil pessoas deverão perder o emprego em 2009.
Outras 40 mil pessoas - que em média todos os anos entram para o mercado de trabalho - deverão manter-se inactivas. Ao mesmo tempo, a degradação da economia poderá empurrar para a exclusão social mais alguns milhares de trabalhadores 1.
Ainda bem que nas últimas eleições o Governo ‘prometeu’ criar mais 150 mil novos postos de trabalho. Onde eles estão, ninguém sabe…
 

Um banco para matar a fome

Sobreda, 24.02.09

O Parlamento aprovou na semana passada um meritório projecto de lei sobre educação sexual no qual se prevê que as escolas distribuam gratuitamente preservativos aos alunos do Ensino Secundário (10º ao 12º anos) a partir do próximo ano lectivo.

O diploma estipula que as escolas criem gabinetes de informação e de apoio, os quais devem “assegurar aos alunos a distribuição gratuita de métodos contraceptivos não sujeitos a prescrição médica, existentes nas unidades de saúde”, ou seja, embalagens de preservativos.
Para a sua implementação, cada escola ou agrupamento designará um professor-coordenador da educação para a saúde e educação sexual, bem como um professor responsável pela área para cada uma das turmas.
O diploma impõe ainda a criação de equipas interdisciplinares responsáveis pela gestão dos gabinetes de apoio e prevê que em cada ano lectivo as escolas dediquem um dia à educação sexual 1.
Simultaneamente, na Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã, duas dezenas de alunos têm estado a recorrer ao ‘Banco Alimentar Contra a Fome’ para conseguir garantir as refeições diárias.
Tal facto deve-se a que as situações de carência dos alunos se têm vindo a agravar nos últimos meses, temendo os representantes dos estudantes que estes jovens em dificuldades se vejam obrigados a abandonar o ensino por causa da crise.
Antes as dificuldades eram mais sentidas por estudantes lusófonos, mas agora, metade dos carenciados são portugueses, sendo já “um problema nacional”. É a própria Associação Académica da UBI que diz temer que as “situações de muita carência podem levar ao abandono” escolar 2.
Aparentemente sem relação e apesar da importância noticiosa que ambas merecem, destas duas notícias releva o facto de onde parece ser, obviamente, prioritário redireccionar o investimento público.
Aliás, e apenas a título exemplificativo, em Itália, para além da oferta de cantinas escolares, é ainda distribuído aos estudantes também uma embalagem de… talões de ‘ticket-restaurante’.
 

A crise é bem mais profunda do que o Governo tenta fazer crer

Sobreda, 23.02.09

«O INE tornou claro que o produto caiu mais do dobro do esperado e que a recessão tem uma dimensão inquietante e profunda, como estudos e documentos da Comissão Europeia demonstram que esta situação tem também raízes estruturais e mais profundas do que a crise actual.

Por exemplo, um estudo recentemente divulgado da Eurydice 1 demonstra que, mesmo antes desta crise, Portugal já estava entre os seis países com piores situações de pobreza e exclusão social na UE 27. Já aí se afirmava que uma das situações mais preocupantes era em Portugal, com mais de 20% das famílias com crianças de menos de seis anos a viver em risco de pobreza, confirmando as nossas repetidas preocupações em relação às políticas do governo PS.
A realidade actual, com mais de 500 mil pessoas efectivamente no desemprego, revela que a crise continua a aprofundar-se com o encerramento de centenas de empresas por todo o País, paragens na produção, salários em atraso, agravamento da precariedade e redução de salários, numa dimensão que não se explica apenas pela crise internacional, mas também por uma política nacional que há muito tinha conduzido o País ao atraso e à crise.
A evolução das contas nacionais, que não reflecte ainda a gravidade da evolução deste princípio do ano, mostra o nosso país como um dos mais penalizados pela actual crise, com um crescimento nulo em todo o ano de 2008, depois de anos de diminuto crescimento económico.
Impõe-se, pois, uma inversão rápida destas políticas. É urgente travar esta tendência avassaladora de destruição de empresas e de emprego com a dupla crise que enfrentamos. É preciso, rapidamente, retomar o caminho da recuperação económica e da criação de emprego, utilizando outras políticas, outras soluções e outras medidas.
Há (outras) soluções para os problemas que estamos a enfrentar e é possível outro rumo para o País.
É preciso tomar medidas concretas, imediatas e bem dirigidas, o que exige o investimento público como elemento estruturante no combate à recessão económica, à dinamização da produção, ao reforço dos meios financeiros das autarquias para um rápido investimento público com reflexos rápidos, designadamente nos planos do emprego e da melhoria dos equipamentos sociais e colectivos.
Exige, igualmente, a efectiva dinamização do investimento público da administração central dirigida ao estímulo da economia local e dos sectores económicos a ele ligados, acompanhado do reforço e do desbloqueamento imediato ou antecipação de verbas comunitárias destinadas ao apoio aos sectores produtivos nacionais.
Por último, implica também uma ajuda imediata às micro, pequenas e médias empresas e à salvaguarda do aparelho produtivo nacional, nomeadamente o congelamento ou redução dos preços na energia, nas telecomunicações e nas portagens, por forma apoiar os factores competitivos do tecido produtivo nacional. O que deve ser acompanhado da adopção de uma orientação de negociação de acordos para pagamento das dívidas ao fisco e à segurança social, que garantam a viabilidade das empresas e a manutenção dos seus postos de trabalho, ou, ainda, a eliminação do Pagamento Especial por Conta para as pequenas empresas» 2.
 
1. Ler ‘Reduzir as desigualdades sociais e culturais para a educação e o acolhimento das crianças e jovens na Europa’ IN http://eacea.ec.europa.eu/portal/page/portal/Eurydice/showPresentation?pubid=098EN
2. Ler Ilda Figueiredo IN www.semanario.pt/noticia.php?ID=4583

Procurar no lixo o pão para a boca

Sobreda, 11.02.09

Restos dos supermercados que diariamente são colocados nos contentores de rua constituem a fonte de alimentação de várias famílias que, embora tendo um lar, enfrentam sérias dificuldades económicas.

Numa noite de Inverno, onde não falta a chuva, cerca das 19 horas, numa rua do centro de Lisboa, abre-se uma porta das traseiras do supermercado de uma cadeia bem conhecida. Em poucos minutos, uma empregada coloca uma dezena de contentores de lixo no passeio.
Escassos metros ao lado, uma senhora búlgara faz de conta que olha para a montra de uma sapataria. A porta das traseiras do supermercado fecha-se e, sem demoras, aproxima-se dos contentores, abre a tampa e desata a mexer no que está lá dentro. Tem fome. Não sabe falar português. Diz-nos apenas, os dedos todos na mão aberta: “Cinco filhos, cinco filhos”. Também têm fome. Num ápice, surgem dois senhores de sacos na mão, um idoso e outro de meia idade. Debruçam-se sobre o interior dos contentores, os braços agitados a revolver o lixo.
Que lixo? Os restos do dia, as sobras daquilo que ninguém comprou. E muita comida com o prazo de validade esgotado: frangos ou coelhos inteiros, peixe ou hortaliças. Pão, croissants e outros bolos, então, - ui! - são às dezenas. Ainda embalados nos sacos, com o respectivo preço, código de barras e data de validade a expirar no próprio dia.
Com os olhos sempre postos no contentor, não parecem querer grande conversa. Desconfiam. E mexem e remexem em embalagens, sacos plásticos, caixas de esferovite. A senhora búlgara, convencida de que o jornalista está ali para o mesmo, toma a iniciativa de estender o braço para lhe dar um saco de croissants.
Como na casa de um idoso, que diz receber 350 euros de reforma, não tendo orçamento para o mês inteiro. É isso que o faz vir aqui mexer em restos de fiambre, separar as fatias que se lhe deparem decentes de outras mais impróprias.
Não passam mais de quatro minutos até chegar uma senhora com os seus 70 anos e aspecto cuidado. Assusta-se com a presença de uma máquina fotográfica, mas aceita falar sob anonimato. É uma história como tantas outras: trabalhou durante décadas como empregada doméstica, nunca descontou, foi despedida e agora vive sem reforma.
“Há muita gente que vem aqui, mas diz que é para levar comida para os animais”, observa, antes de criticar aqueles “que vêm aqui mexer e deixam tudo espalhado no chão”. Diz-nos que o mais habitual é aproveitar para levar pão e massa. “Eu acho que não estou a roubar nada a ninguém”.
O fenómeno não é novo, nem tão pouco circunscrito a este estabelecimento em particular. É algo que acontece em todo o país, onde quer que a fome aperte. E há fome em muitos lados.
É esta a dura e crua realidade diária de muita gente: procurar a comida no lixo que os supermercados deixam na rua. Não são pessoas sem abrigo. É gente perfeitamente integrada na sociedade, mas que vive ‘à rasca’, com parcas reformas ou no desemprego.
 

Situações de extrema carência em bairros históricos

Sobreda, 10.01.09

A actual vaga de frio tem revelado casos de risco e de pobreza escondida disseminados um por toda a Lisboa. Problemáticas são as zonas mais antigas da cidade, incluindo a Baixa, onde se encontram idosos que vivem sozinhos “no meio de um prédio de serviços ou comércio, sem condições de habitabilidade ou de conforto térmico”.

Os bairros históricos como Alfama, Bairro Alto e Mouraria, onde há uma maior predominância de população idosa, são algumas das zonas entretanto visitadas no âmbito da campanha de proximidade desencadeada pela CML.
Foram mesmo já identificadas cerca de 30 situações de risco que até aqui permaneciam escondidas dentro de quatro paredes e desconhecidas dos serviços de acção social da CML e de outras instituições. Depois de referenciados, os casos são analisados pela Protecção Civil e pela SCML, que desencadearão acções, tais como alertar familiares ou amigos, providenciar acompanhamento domiciliário permanente ou encaminhar as pessoas para centros de dia.
Nesta acção, que se prolongará enquanto as baixas temperaturas o justificarem, participam cerca de 200 pessoas, entre elementos do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa, da Polícia Municipal, de corporações de bombeiros voluntários e dos serviços municipais de protecção civil.
Mas Carnide foi também uma das zonas de Lisboa em que as equipas de rua referenciaram mais situações de risco, segundo informou o director do departamento de protecção civil.
Ao longo de todo o ano são denunciadas à autarquia e à SCML, por vizinhos ou familiares, vários casos semelhantes. Ocorrências como incêndios têm ajudado a revelar a existência de idosos isolados, com filhos toxicodependentes ou deficientes.